Faz alguns dias a revista The Economist publicou uma série de artigos sobre os perigos criados pelo excesso de endividamento de governos, empresas e consumidores nos países avançados. Pontos de fundamental importância foram levantados, e é extremamente saudável a atitude dos editores da revista de denunciar os excessos causados pela ideologia do keynesianismo de gibi (cartoonish Keynesianism).
Vamos por partes. Primeiro, os fatos: nos países ricos, as dívidas governamentais vêm crescendo continuamente ao longo do tempo, resultado dos excessos típicos da irracionalidade política (falhas de governo), do envelhecimento das populações (transição demográfica), e dos compromissos criados já faz quase um século pelo estado de bem-estar social (welfare state).
O excessivo endividamento não se restringe, porém, somente aos governos. Nos Estados Unidos em particular o endividamento das famílias também cresceu de forma explosiva durante os últimos 60 anos. Várias são as explicações para o fenômeno, entre elas as inovações da indústria financeira e regulações governamentais de má qualidade, além de incentivos perversos criados por administrações sempre mais preocupadas com a próxima eleição que com a estabilidade financeira e econômica de longo prazo. O desenvolvimento de uma cultura leniente em relação ao endividamento, que passou de mácula a símbolo de riqueza, também contribuiu para o aumento da imprudência financeira das famílias. A dívida do setor privado nos EUA, por exemplo, que era de 50% do PIB em 1950, atingiu em ápice recente 300% do PIB.
Companhias por sua vez passaram a utilizar cada vez mais o crédito para alavancagem financeira de alto risco. O comportamento marcado pelo risco moral (moral hazard) e busca de rendas (rent seeking) tornou-se comum na medida em que o estado passou a ser o segurador de última instância de toda atividade econômica e no momento em que deixou de existir o efeito purgatório dos ciclos econômicos sobre empresas que se expõem a riscos excessivos com fundos alheios. Vivemos hoje no mundo das companhias zumbis (zombie companies).
O curioso é que, numa situação na qual o crédito é naturalmente escasso, o resultado dos excessos do governo e do setor privado seria o aumento dos juros reais, havendo consequentemente uma moderação salutar do comportamento imprudente. Mas o que vimos em praticamente todos os países foi exatamente o oposto: cada farra financeira levava os bancos centrais e tesouros nacionais a reduzirem os juros artificialmente via aumento desordenado do crédito, sustentando assim o próximo carnaval de endividamento. A instabilidade econômica criada por tais políticas poderia resultar em dois cenários opostos: inflação desenfreada ou implosão repentina dos preços dos ativos como resultado de uma crise de confiança no sistema financeiro, com efeitos deflacionários. Este último cenário, como sabemos, foi o que acabou predominando desta vez nas economias avançadas.
O que nenhum político eleito nas vagas populistas das crises lhes dirá é que todo este endividamento agravado por suas políticas mais recentes terá consequências negativas que poderão durar por décadas. Governos, empresas e consumidores excessivamente endividados terão certamente que mudar de comportamento e lidar com a realidade de que são mais pobres que imaginavam ser até recentemente. O ajustamento à esta nova realidade será provavelmente longo e manterá o crescimento econômico das economias ricas em banho-maria.
Mas as consequências não pararão aí. As economias de países emergentes como a China e o Brasil são altamente dependentes dos excessos consumistas dos governos e do setor privado nos países avançados, e consequentemente da leniência creditícia que neles ainda impera. Na medida em que o ópio do keynesianismo de gibi se esgotar, governos, empresas e consumidores nos países centrais serão forçados a apertar cintos e finalmente ajustar suas expectativas. Neste momento (que ainda não chegou) é que os efeitos mais severos dos ajustes serão sentidos nas economias emergentes.
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